Mestre KING

Biografia

Raimundo Bispo dos Santos (Santa Inês, Bahia, 1943 – Salvador, Bahia, 2018). Professor de dança, coreógrafo e bailarino. Criado por uma família católica em Salvador, onde reside desde 1951, cresce no Pelourinho, centro histórico da capital. Em 1963, começa a cantar no Mosteiro de São Bento e a praticar capoeira. Durante a formação como capoeirista, recebe a alcunha Mestre King. No final dos anos 1960, integra como cantor e capoeirista o grupo Viva Bahia, criado pela folclorista e etnomusicóloga baiana Emília Biancardi (1932). Dança no Grupo Folclórico Olodum, em 1970, sob a direção do bailarino e coreógrafo mato-grossense Domingos Campos (1934). Um ano depois, o nome do grupo é alterado para Olodumaré. Com ele, King participa do espetáculo Diabruras da Bahia (1971), que estreia no Teatro Castro Alves. Com o Olodumaré, futuro Brasil Tropical, realiza turnê pela Alemanha.

Ingressa na Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1972, sendo o primeiro homem a cursar dança numa universidade na América Latina. Tem aulas com a professora de balé Margarida Parreiras Horta e de dança moderna com bailarino americano Clyde Morgan (1940), formando-se em 1976. Especializa-se em coreografia pela mesma universidade em 1988.

Destaca-se como professor de dança em várias instituições, como Sesc, onde forma o Grupo Folclórico Balú e a Companhia Brasileira de Danças Populares, o Colégio Estadual Duque de Caxias; Colégio Estadual Severino Vieira, onde funda o Grupo Experimental de Dança Moderna Gênesis, o Escola de Dança da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), e na Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia (UFBA), como professor substituto (1992-1994).

Nos anos 1990, ministra aulas em estúdios e universidades norte-americanas: Stanford University (em que recebe o título de Filósofo da Dança); University of California (Ucla), em Los Angeles; New York University e Columbia University, ambas em Nova York. Participa do Brazilian Dance Concert at Stanford, em 1996. Atua como coreógrafo e solista na Oficina Nacional de Dança nos anos de 1979, 1982 e 1985.

King explorava relações entre os mitos afro-brasileiros, a dança dos orixás, a capoeira e a dança moderna. Referência da dança afro-baiana e brasileira, trabalhou na formação de dançarinos e destacou-se como produtor e pesquisador da dança afro.

Análise

Mestre King, um dos professores de dança afro mais conhecidos do Brasil, atuou por mais de 40 anos como educador de dança, coreógrafo e pesquisador dos fundamentos da dança afro. Tornou-se célebre ao recriar, na lógica do espaço cênico, ritmos, mitos e gestualidades do candomblé.

Durante sua estada na UFBA, nos anos 1970, desenvolveu pesquisa sobre os movimentos simbólicos dos orixás, modificando os temas de trabalho da Escola de Dança, até então vinculados ao ensino da dança europeia, clássica ou moderna. King criticava as posições ortodoxas dos que rechaçam a aproximação das técnicas clássicas e modernas com a dança afro. Construiu sínteses entre os movimentos simbólicos dos rituais afro-brasileiros e os da dança clássica, os princípios da dança moderna americana, a movimentação da capoeira, os repertórios dos espetáculos folclóricos e outras linguagens, como a dança contemporânea, o jazz dance, as danças regionais e as demais corporalidades étnico-culturais.

Seu conhecimento empírico sobre as danças dos orixás resultou da experiência como intérprete em grupos folclóricos, nos anos 1960 e 1970, e da mediação com os saberes transmitidos por sacerdotes e filhos de santo das casas tradicionais de Salvador. Haviam, entretanto, tensões que permeiam a divulgação da cultura do candomblé fora de seus espaços de culto. A relação de King com pais e mães de santo de Salvador oscilava entre acusações de vulgarização dos elementos e danças rituais nos espetáculos e o reconhecimento pela divulgação afirmativa da cultura negra nos espaços laicos de produção cultural e pesquisa acadêmica.

Em seu percurso artístico, King atuou, dirigiu e coreografou em vários grupos, em exibições escolares ou apresentações em teatros tradicionais e performances no exterior. Também trabalhou como produtor da dança afro e a formação e atuação como coreógrafo e professor ressaltava a sua capacidade de mesclar linguagens de dança e conceber os processos de criação como encontro entre diferentes tradições e culturas.

Se sua criação repetia fórmulas definidas por sua prática artística ao longo de décadas – tanto no uso de temas mitológicos da religião afro-brasileira, quanto nas construções coreográficas, em que movimentos da dança moderna, da capoeira e da dança afro articulam-se em estruturas e fluxos espaciais reconhecíveis –, seu trabalho como professor da dança parece contemporâneo. A notoriedade confirma o prestígio como professor atento e incentivador de novos talentos, crítico do academicismo e um articulador na divulgação da dança afro.

Foi responsável pela iniciação profissional de bailarinos como Augusto Omolú (1962-2013), Rosângela Silvestre (1959), Armando Pekeno (1960), Elísio Pitta (1956), José Carlos Arandiba, o Zebrinha (1954), Carlos Ujhama (1977), e outros. Conhecido pela exigência de disciplina e engajamento físico dos dançarinos, não descartava a participação de intérpretes colaboradores nas coreografias, nem desanimava ao enfrentar condições de trabalho precárias, como a falta de apoio financeiro ou salas aula pouco adequadas. Seu trabalho caracterizava-se pela estética e cultura afro-descendentes e atuação artístico-pedagógica entre gerações de dançarinos vindos das camadas pobres de Salvador. Capacitava-os na busca de seus próprios caminhos, na universidade ou em companhias de dança, no Brasil e no exterior.